A prática regular de atividade física é uma importante aliada da saúde masculina e também vem sendo investigada pela ciência em relação ao câncer. No contexto do Novembro Azul e do Dia Nacional de Combate ao Câncer, celebrado no próximo dia 27, o profissional de Educação Física Jauan Anselmo chama a atenção para evidências que associam melhores níveis de condicionamento físico a menor risco de câncer de próstata e a melhores desfechos entre pessoas que convivem com a doença.
O tema ganha relevância diante da estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA) de 77.920 novos casos de câncer de próstata por ano no Brasil, entre 2026 e 2028. O número corresponde a aproximadamente 30,5% dos novos casos de câncer entre homens, excluindo os tumores de pele não melanoma. A dimensão desses dados reforça a importância da informação, do acompanhamento médico e da atenção à saúde masculina.
Para o personal trainer e especialista em fisiologia do exercício, é fundamental compreender que o exercício físico não deve ser apresentado como uma garantia contra o câncer, mas como parte de um conjunto de hábitos associados à saúde e à redução de fatores de risco. O profissional destaca que o treinamento regular melhora a capacidade cardiorrespiratória, fortalece a musculatura e contribui para o controle do peso e de processos inflamatórios.
“Quando falamos sobre atividade física e câncer, precisamos ter responsabilidade para não transformar uma associação científica em promessa de prevenção. O que sabemos é que melhorar o condicionamento traz benefícios importantes para a saúde e que há uma relação entre melhores níveis de aptidão e menor risco de alguns desfechos relacionados ao câncer, incluindo o de próstata. Treinar é uma estratégia de fortalecimento do organismo, mas não substitui consulta, avaliação ou exames médicos”, pontua Jauan.
.Evidências científicas
Uma pesquisa publicada no British Journal of Sports Medicine acompanhou 57.652 homens suecos que realizaram avaliações de condicionamento cardiorrespiratório em bicicleta ergométrica. Durante o acompanhamento, 592 participantes desenvolveram câncer de próstata. Os pesquisadores observaram que homens que apresentaram aumento superior a 3% na aptidão cardiorrespiratória tiveram risco 35% menor de desenvolver a doença em comparação àqueles cuja capacidade física diminuiu. O estudo identificou uma associação com a incidência do câncer, mas não encontrou relação significativa com a mortalidade pela doença.
Outra revisão sistemática publicada na revista Medicine & Science in Sports & Exercise, vinculada ao American College of Sports Medicine (ACSM), analisou dezenas de estudos sobre atividade física e câncer. Entre os resultados, pesquisas com homens diagnosticados com câncer de próstata apontaram associação entre níveis mais elevados de atividade física e redução de até 49% no risco de mortalidade geral e 38% na mortalidade específica pela doença, em comparação aos grupos menos ativos.
Os autores, contudo, ressaltam que esses resultados são observacionais e não significam que o exercício, isoladamente, determine a evolução do câncer.
Para explicar parte dos mecanismos envolvidos, o especialista destaca o papel do músculo como um órgão metabolicamente ativo. Durante a contração muscular, são liberadas substâncias chamadas miocinas, que atuam na comunicação entre os músculos e outros órgãos e participam de processos relacionados à regulação metabólica e inflamatória.
“Quando o músculo trabalha, ele também libera substâncias que participam da comunicação com diferentes sistemas do organismo. É por isso que hoje entendemos a musculatura como um órgão endócrino. A prática regular de exercícios contribui para melhorar o ambiente metabólico e a regulação de processos inflamatórios, embora ainda existam pesquisas em andamento para compreender todos esses mecanismos e sua relação com os diferentes tipos de câncer”, explica.
Exercício durante o tratamento
Além da relação com o condicionamento físico e os indicadores de saúde, a atividade física tem papel importante para pessoas que já receberam o diagnóstico de câncer. Durante tratamentos como quimioterapia e radioterapia, a fadiga relacionada à doença pode comprometer a disposição, a força muscular e a capacidade de realizar tarefas cotidianas.
Diretrizes da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) recomendam exercícios aeróbicos e resistidos, quando clinicamente indicados, como estratégia para reduzir efeitos adversos do tratamento. As evidências apontam benefícios na redução da fadiga, na preservação da força, da capacidade cardiorrespiratória e da funcionalidade.
Nesse contexto, Jauan chama a atenção para a responsabilidade dos profissionais de Educação Física que acompanham pessoas em tratamento oncológico. A prescrição não pode seguir os mesmos parâmetros de um aluno sem comprometimentos de saúde: é necessário considerar o tipo de câncer, as etapas do tratamento, os efeitos colaterais, as limitações funcionais e as orientações da equipe médica.
“O personal trainer precisa compreender que acompanhar um aluno oncológico exige preparo, escuta e responsabilidade. Não é simplesmente adaptar uma ficha de treino ou reduzir a carga, mas entender que aquela pessoa pode apresentar oscilações de energia, alterações de força, dores e diferentes respostas ao tratamento. O planejamento precisa ser individualizado, respeitando os limites do paciente e mantendo diálogo com a equipe de saúde. Em alguns momentos, o objetivo será desenvolver força; em outros, preservar a funcionalidade e ajudar a pessoa a manter sua autonomia”, ressalta.
O profissional reforça que o exercício deve ser encarado como parte complementar do cuidado, e não como substituto de tratamentos ou acompanhamento médico. A avaliação das condições clínicas e a liberação da equipe responsável são fundamentais antes do início ou da retomada dos treinos.
Ao abordar o Novembro Azul, Jauan também destaca que homens fisicamente ativos não devem negligenciar consultas e exames. A prática de exercícios não elimina o risco de desenvolver câncer de próstata, e o acompanhamento médico continua sendo indispensável, especialmente diante de fatores como idade e histórico familiar.
“O homem que treina, se alimenta bem e mantém bons indicadores de condicionamento também precisa cuidar da saúde de forma completa. Não podemos confundir qualidade de vida com imunidade a doenças. A atividade física é uma ferramenta importante, mas não substitui os exames, a consulta com o especialista ou o diagnóstico precoce. O melhor caminho é combinar movimento, hábitos saudáveis e acompanhamento profissional”, conclui.
