A Operação Placebo, no Rio Grande do Sul, investiga justamente um esquema envolvendo medicamentos de alto custo destinados a pacientes com câncer. Segundo a Polícia Civil, 39 possíveis vítimas foram identificadas, sete delas morreram durante o tratamento — embora a eventual relação entre as mortes e os medicamentos investigados ainda esteja sendo apurada.
Poucas coisas são tão perversas quanto transformar a esperança de um paciente com câncer em oportunidade de lucro. Quem enfrenta um diagnóstico de câncer já convive com medo, dor, incerteza e, muitas vezes, com a urgência de conseguir um medicamento que pode representar a diferença entre continuar lutando e perder a batalha. É justamente essa fragilidade que torna as suspeitas investigadas pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul tão graves. Na Operação Placebo, empresários, um médico e advogados estão entre os investigados por um suposto esquema envolvendo medicamentos de alto custo, processos judiciais, empresas ligadas entre si e possíveis fraudes nos orçamentos. A investigação aponta ainda para medicamentos com indícios de adulteração ou falsificação. Mais de 60 ações judiciais estão sendo analisadas.
O mais revoltante é que, se as suspeitas forem comprovadas, não estaremos diante de uma simples fraude contra o dinheiro público. Estaremos diante de um possível crime contra pessoas que estavam lutando pela própria vida. A judicialização da saúde existe para proteger o cidadão quando o tratamento necessário não está disponível, e não para transformar a necessidade do paciente em mecanismo de enriquecimento ilícito. Segundo a investigação, empresas teriam sido utilizadas para simular concorrência e elevar artificialmente os valores pagos com recursos públicos.
É preciso investigar até o último detalhe: quem prescreveu, quem indicou os caminhos judiciais, quem apresentou os orçamentos, quem forneceu os medicamentos, quem recebeu o dinheiro e quem, eventualmente, fechou os olhos para irregularidades. Não basta descobrir quem estava na ponta. É necessário identificar toda a cadeia de responsabilidades.
