O câncer de pulmão continua sendo um dos maiores desafios para a saúde pública no Brasil, principalmente por ser uma doença silenciosa. Dados da plataforma Data Câncer 360º, do Instituto Lado a Lado pela Vida, revelam que quase 90% dos pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 2023 receberam o diagnóstico apenas nos estágios 3 ou 4 da doença, quando as chances de cura são significativamente menores. Dos casos com estadiamento identificado, apenas 10,4% foram descobertos nas fases iniciais.
Segundo o oncologista Igor Morbeck, membro do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado pela Vida, o cenário brasileiro acompanha uma tendência mundial, agravada pela alta exposição a fatores de risco como tabagismo, sedentarismo, obesidade e alimentação inadequada. O especialista destaca que pessoas fumantes e ex-fumantes devem realizar anualmente uma tomografia de baixa dose, exame disponível no SUS, mas lamenta a ausência de um programa nacional de rastreamento voltado ao diagnóstico precoce da doença.
O estudo também aponta falhas na investigação clínica e na qualidade das informações registradas. Cerca de 40% dos casos analisados não continham dados completos sobre o estágio do tumor ou a presença de metástase. Morbeck alerta que o raio X de tórax não é suficiente para identificar precocemente o câncer de pulmão e que muitos pacientes acabam sendo tratados inicialmente como se tivessem infecções respiratórias, atrasando o diagnóstico e reduzindo as possibilidades de tratamento curativo.
Diante desse cenário, especialistas defendem o fortalecimento de campanhas de conscientização e políticas públicas voltadas à prevenção e ao rastreamento da doença, especialmente entre pessoas com histórico de tabagismo. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima o surgimento de 35.380 novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028, enquanto a campanha Respire Agosto reforça a importância do diagnóstico precoce, lembrando que a descoberta da doença em estágios iniciais pode aumentar significativamente as chances de cura.
