A obesidade pode antecipar alterações cerebrais associadas à Doença de Alzheimer, segundo apontam novos estudos científicos. Pesquisas recentes indicam que o excesso de peso não impacta apenas o coração e o metabolismo, mas também pode afetar o cérebro de forma silenciosa e progressiva ao longo dos anos.
Estudos publicados em periódicos científicos internacionais e indexados no PubMed, repositório oficial de pesquisas médicas dos Estados Unidos, mostram que o excesso de peso ao longo da vida pode estar associado a alterações em biomarcadores ligados à Doença de Alzheimer, mesmo décadas antes do surgimento dos primeiros sintomas clínicos.
Essas evidências reforçam a compreensão de que a doença neurodegenerativa não se inicia de forma abrupta, mas resulta de um conjunto de processos biológicos graduais.
“O cérebro reage ao metabolismo do corpo de forma contínua. A obesidade crônica pode acelerar processos inflamatórios que prejudicam a função neuronal e aumentar o risco de doenças neurodegenerativas”, explica o médico nutrólogo Adriano Faustino, especialista em metabolismo e diretor da Sociedade Brasileira de Medicina da Obesidade (SBEMO).
De acordo com os estudos analisados, indivíduos com obesidade apresentam maior elevação de marcadores sanguíneos relacionados à neurodegeneração e à inflamação cerebral.
Entre os principais biomarcadores afetados estão o Neurofilament Light Chain (NfL), uma proteína encontrada nos neurônios, cujos níveis elevados no sangue indicam dano neuronal precoce, conforme estudo de Mielke et al. (2025), publicado em revista médica americana indexada no PubMed. Outro marcador relevante é a Proteína Glial Fibrilar Ácida (GFAP), presente nas células gliais do cérebro, cujos níveis elevados indicam inflamação cerebral, segundo pesquisa de Raji et al. (2025), conduzida no âmbito do ADNI, consórcio americano de pesquisa em neuroimagem e biomarcadores.
“Marcadores como NfL e GFAP ajudam a mostrar que o Alzheimer não surge de repente. Ele é resultado de processos biológicos que podem começar décadas antes, e o excesso de gordura corporal atua como um acelerador desses mecanismos”, ressalta Dr. Faustino.
As pesquisas que acompanharam milhares de adultos por períodos de até 10 a 12 anos, analisaram dados metabólicos, composição corporal e biomarcadores cerebrais. Os resultados sugerem que a obesidade está associada ao aumento progressivo de marcadores de neurodegeneração, mesmo em pessoas cognitivamente normais, conforme apontado por Mielke et al. (2025). Além disso, alterações inflamatórias sistêmicas e a resistência à insulina podem atuar como uma ponte entre o excesso de gordura corporal e o cérebro, de acordo com estudo de Koriath e Perneczky (2025), publicado em revista internacional indexada no PubMed. Os dados também indicam que nem todos os biomarcadores clássicos do Alzheimer, como amiloide e tau, se alteram de forma uniforme, o que reforça o caráter multifatorial do processo, conforme demonstrado por Raji et al. (2025), no contexto do ADNI.
“É importante frisar que a obesidade não significa que toda pessoa desenvolverá Alzheimer. O que vemos é um risco maior e um processo biológico mais acelerado”, pondera Dr. Faustino.
As descobertas levantam implicações práticas relevantes e abrem caminho para novas investigações. Entre as hipóteses em discussão está a possibilidade de que o controle da obesidade possa, no futuro, contribuir para a redução do risco de demência ou para o atraso do início do declínio cognitivo. Estratégias potenciais incluem mudanças sustentáveis no estilo de vida, controle metabólico precoce e a avaliação do impacto indireto de medicamentos voltados ao tratamento da obesidade sobre a saúde cerebral.
“Do ponto de vista clínico, qualquer intervenção que melhore metabolismo, inflamação ou resistência à insulina tem potencial de proteger o cérebro. Mas ainda estão em curso estudos clínicos específicos para confirmar esses efeitos”, explica Dr. Faustino.




