O crescimento da fila para transplantes de córnea no Brasil é um retrato incômodo de como avanços médicos podem ser neutralizados pelo descaso da gestão pública. Em 2024, a espera média chegou a 374 dias, mais que o dobro do registrado em 2015, segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Estados como o Rio de Janeiro acumulam casos dramáticos de mais de três anos de espera. Entre as razões para tal descaso, segundo o CBO, estão a falta de reajuste nos repasses, efeitos da pandemia e maior rigor para os bancos de olhos. Porém, nenhuma delas justifica a angústia de 31 mil brasileiros que estão à espera de recuperar a visão.
E não se trata apenas de estatística: cada número representa uma vida que poderia ser transformada pela cirurgia. O país, que já realizou 150 mil transplantes de córnea em uma década e é referência internacional, parece acomodado em seu prestígio. É hora de transformar reconhecimento em eficiência, garantindo que qualidade e acesso caminhem juntos. Afinal, não há mérito em ser exemplo global enquanto cidadãos continuam cegos por descuido administrativo.




