A Bahia registrou um crescimento de 38,12% na dispensação da Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) entre 2024 e 2025. De acordo com dados oficiais, o número de tratamentos dispensados mensalmente passou de 14.569 no ano passado para 20.123 neste ano, consolidando o estado como um dos destaques do Nordeste na ampliação do acesso à estratégia preventiva.
A maior parte das dispensações ocorre pela rede pública de saúde. Do total de atendimentos relacionados à PrEP na Bahia, 92% têm origem no Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto 8% são realizados na rede privada. Atualmente, 5.081 pessoas estão em tratamento ativo com a profilaxia no estado. Nos últimos 12 meses, 7.603 pessoas registraram ao menos uma dispensação do medicamento, enquanto 2.522 usuários descontinuaram o uso no mesmo período.
Para o médico Vinícius Borges, que atua na linha de frente da prevenção ao HIV na região, o avanço observado na Bahia e em outros estados nordestinos não é isolado nem recente. Ao comentar o cenário regional, o médico aponta que o crescimento resulta de fatores que vêm sendo construídos ao longo dos últimos anos.
Segundo ele, há um papel central desempenhado por movimentos sociais e coletivos locais. “Trabalho consistente de ativistas e organizações da sociedade civil, que historicamente têm papel central na educação em saúde, redução do estigma e aproximação das populações mais vulneráveis aos serviços do SUS”. No contexto baiano, essas iniciativas têm sido fundamentais para ampliar o diálogo com públicos historicamente afastados das políticas de prevenção.
O médico também destaca o impacto das plataformas digitais na disseminação de informação. “Uso estratégico das redes sociais, tanto por ativistas quanto por profissionais de saúde como eu e usuários, ajudando a disseminar informação de forma mais direta, acessível e menos institucional, o que reduz medo e desinformação”. Na Bahia, esse tipo de comunicação tem contribuído para tornar a PrEP mais conhecida fora dos grandes centros urbanos.
Outro ponto citado por Borges é a mudança na forma como a profilaxia é percebida socialmente. “Mudança cultural entre os usuários, com mais pessoas se sentindo seguras para dizer que usam PrEP. Isso normaliza a estratégia, diminui o estigma e gera um efeito de rede: pessoas informam, recomendam e encorajam outras”. Esse processo ajuda a explicar o aumento no número de pessoas que buscaram ao menos uma dispensação no último ano.
Na avaliação do infectologista, os dados da Bahia também refletem transformações estruturais no sistema público de saúde. “Avanços do SUS, especialmente na ampliação de serviços, descentralização da PrEP para além de capitais, qualificação das equipes e incorporação da prevenção combinada como política pública mais madura”. A interiorização do atendimento é apontada como um dos fatores-chave para alcançar novos usuários no estado.
Borges ainda ressalta que o crescimento observado na região tem raízes profundas. “Esse crescimento no Nordeste não acontece ‘do nada’: ele é resultado de anos de trabalho comunitário aliado a políticas públicas que, quando bem executadas, conseguem alcançar quem tava à margem da prevenção”. Na Bahia, os números indicam que esse esforço contínuo começa a se traduzir em maior acesso à PrEP e em um avanço concreto na estratégia de prevenção ao HIV.




